Dismetria Óssea Pediátrica: O que fazer quando uma perna da criança é maior que a outra?
- Leonardo Almeida
- 26 de jul.
- 4 min de leitura
Você já reparou se o seu filho caminha mancando ligeiramente, anda frequentemente na ponta de um dos pés ou se as bainhas das calças dele parecem ficar desalinhadas no corpo? No consultório de ortopedia infantil, essas observações dos pais são pistas frequentes para uma condição chamada dismetria óssea — popularmente conhecida como diferença no comprimento dos membros inferiores.
Descobrir que uma perna é mais curta que a outra costuma gerar apreensão na família. Afinal, essa diferença vai aumentar com o crescimento? Vai afetar a coluna? Como corrigir?
A boa notícia é que a ortopedia pediátrica dispõe de métodos precisos de diagnóstico e tratamentos altamente eficazes para restabelecer o equilíbrio do corpo da criança. Neste artigo, vamos explicar as causas, os sintomas e as principais formas de correção da dismetria óssea.
O que é a Dismetria Óssea?
A dismetria dos membros inferiores ocorre quando há uma discrepância no comprimento entre a perna direita e a perna esquerda.
É importante saber que pequenas diferenças (de até 0,5 cm a 1 cm) são extremamente comuns na população em geral e, na maioria das vezes, são assintomáticas e não exigem nenhum tipo de intervenção. O alerta acende quando a diferença ultrapassa esse limite ou apresenta um ritmo de crescimento desigual ao longo dos anos.
A dismetria pode ser dividida em dois tipos principais:
Dismetria Verdadeira (Estrutural): Quando existe uma diferença real no tamanho dos ossos (fêmur ou tíbia).
Falsa Dismetria (Funcional): Quando os ossos têm o mesmo tamanho, mas o desalinhamento do quadril, a escoliose ou contraturas musculares fazem parecer que uma perna é mais curta que a outra.
Quais são as causas da diferença no tamanho das pernas?
Em crianças, a dismetria pode ter diversas origens, divididas entre congênitas (presentes desde o nascimento) ou adquiridas:
Causas Congênitas: Alterações no desenvolvimento embrionário dos ossos, como a deficiência focal femoral ou a hemimelia fibular.
Traumas e Fraturas: Fraturas que atingem a placa de crescimento (a área de cartilagem responsável pelo estirão do osso) podem desacelerar o crescimento do membro. Por outro lado, algumas fraturas consolidadas podem sofrer uma "hiperestimulação" sanguínea e fazer o osso crescer mais do que o normal temporariamente.
Infecções Ósseas: Quadros de osteomielite ou artrite séptica na infância podem danificar a placa de crescimento.
Doenças Vasculares ou Neurológicas: Condições como a Paralisia Cerebral ou a Doença de Legg-Calvé-Perthes (que afeta o quadril).
Idiopática: Quando nenhuma causa específica é identificada e o osso simplesmente desenvolve um ritmo de crescimento sutilmente diferente do outro lado.
Quais sinais os pais devem observar?
Os sintomas variam de acordo com a magnitude da diferença e a idade da criança:
Alteração na marcha: A criança manca ou dá passos assimétricos.
Marcha em equino: A criança anda na ponta do pé da perna mais curta para compensar a altura.
Flexão do joelho: A criança dobra ligeiramente o joelho da perna maior ao ficar de pé.
Basculamento da bacia: O quadril fica visivelmente "torto" ou inclinado ao parar de pé.
Dores compensatórias: Queixas de dor na coluna lombar, nos joelhos ou nos pés devido ao desalinhamento postural.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico preciso é a chave para o planejamento do tratamento. No consultório, o ortopedista infantil utiliza réguas especiais e blocos de compensação sob o pé para medir a diferença clinicamente.
Para quantificar a dismetria com precisão milimétrica, utilizamos exames de imagem:
Escanometria / Panorâmica dos Membros Inferiores: Exames de radiografia que mapeiam e medem individualmente o comprimento do fêmur e da tíbia de ambas as pernas.
Cálculo do Crescimento Residual: Utilizando tabelas e gráficos de crescimento ósseo, o especialista consegue prever qual será a diferença final entre as pernas quando a criança atingir a maturidade esquelética (idade adulta).
Como corrigir a Dismetria Óssea na criança?
O tratamento depende diretamente de três fatores: a idade da criança, a causa e a diferença projetada para a vida adulta.
1. Tratamento Conservador (Diferenças Pequenas)
Para dismetrias pequenas (geralmente menores que 2 cm a 2,5 cm na idade adulta):
Palmilhas e Compensações no Calçado: Coloca-se um salto compensatório dentro do tênis ou adaptado no solado da perna menor. Isso nivela a bacia, corrige a postura e previne dores na coluna, sem a necessidade de cirurgias.
Acompanhamento Periódico: Consultas e exames regulares para monitorar se a diferença está estável ou aumentando com o estirão.
2. Epifisiodese (Bloqueio do Crescimento do Membro Maior)
Para dismetrias moderadas (geralmente entre 2 cm e 5 cm):
A epifisiodese é uma cirurgia minimamente invasiva e extremamente elegante. Em vez de "esticar" a perna menor, o cirurgião coloca pequenos parafusos ou placas guia na placa de crescimento da perna maior, desacelerando temporariamente o seu crescimento no momento exato do estirão.
Conforme a perna menor continua crescendo normalmente, ela "alcança" a perna maior. Quando os comprimentos se igualam na maturidade óssea, o alinhamento perfeito é atingido.

3. Alongamento Ósseo Cirúrgico (Membro Menor)
Para dismetrias graves (geralmente maiores que 5 cm):
Nesses casos, é indicado o alongamento da perna mais curta. O osso é delicadamente seccionado e estabilizado por dispositivos modernos, como fixadores externos ou hastes intramedulares expansíveis.
Através de um processo chamado osteogênese por distração, o dispositivo afasta as extremidades do osso frações de milímetro por dia. O próprio organismo da criança preenche esse espaço criando osso novo e saudável, permitindo ganhos significativos de comprimento.





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