Entorse de Tornozelo no Adulto: Por que "apenas um mau jeito" pode virar um problema crônico?
- Leonardo Almeida
- 26 de jul.
- 4 min de leitura
Quem nunca deu um "passo em falso" na calçada, virou o pé ao praticar esportes ou descendo um degrau e sentiu aquela dor aguda e imediata no tornozelo? A entorse de tornozelo — popularmente conhecida como torção ou "mau jeito" — é uma das lesões ortopédicas mais frequentes nos prontos-socorros e consultórios.
Por ser um acidente tão comum no dia a dia, muitas pessoas cometem o erro de negligenciar a lesão. Acredita-se que basta aplicar um pouco de gelo, tomar um analgésico por conta própria e esperar a dor passar.
A verdade é que uma entorse não tratada adequadamente pode comprometer a estabilidade da articulação e levar a dores crônicas no futuro. Neste artigo, vamos explicar o que realmente acontece no seu tornozelo durante a torção, como identificar a gravidade da lesão e qual é o caminho correto para uma recuperação completa.
O que acontece no tornozelo durante a entorse?
O tornozelo é uma articulação complexa que conecta os ossos da perna (tíbia e fíbula) ao osso do pé (tálus). Para manter essa estrutura firme e alinhada, contamos com um conjunto de ligamentos — tecidos resistentes que funcionam como "cintas de contenção" elásticas.
A entorse ocorre quando o tornozelo realiza um movimento brusco e excessivo além do seu limite natural de amplitude. Na imensa maioria dos casos (cerca de 85%), o movimento é de inversão: o pé vira "para dentro" e o peso do corpo cai sobre a borda lateral.
Quando isso acontece, os ligamentos da parte externa do tornozelo são esticados bruscamente. Dependendo da energia do trauma, essa lesão é classificada em três graus:
Grau 1 (Leve): Ocorre apenas um estiramento microscópico das fibras do ligamento. Há dor leve e inchaço discreto, mas a articulação permanece estável.
Grau 2 (Moderado): Ocorre uma ruptura parcial de um ou mais ligamentos. A dor é moderada a intensa, o inchaço é evidente e surgem manchas roxas (equimoses) na pele.
Grau 3 (Grave): Ocorre a ruptura total dos ligamentos ou arrancamento ósseo. A dor é severa, há grande inchaço, hematoma e incapacidade de apoiar o pé no chão, gerando instabilidade na articulação.


Sintomas: Como saber se é uma entorse ou uma fratura?
Logo após a torção, os sintomas mais comuns incluem:
Dor ao tentar apoiar o pé no chão ou ao movimentar o tornozelo.
Inchaço (edema) que se desenvolve rapidamente ao redor do ossinho de fora do pé (maléolo lateral).
Manchas roxas ou azuladas que podem descer em direção aos dedos nos dias seguintes.
Sensação de calor e sensibilidade ao toque na região atingida.
🚨 Entorse ou Fratura? A dor e o inchaço de uma entorse grave de grau 3 podem ser idênticos aos de uma fratura óssea. Se você não consegue dar nem quatro passos logo após o acidente, sente dor diretamente sobre os ossos ou percebe alguma deformidade visível, procure atendimento médico imediato.
O Diagnóstico no Consultório
O diagnóstico começa com um exame físico detalhado realizado pelo ortopedista, que irá palpar pontos específicos e realizar testes de estabilidade articular.
Para afastar a hipótese de fratura nos ossos do tornozelo ou do pé, o médico solicitará uma Radiografia (Raio-X). Caso haja suspeita de lesões cartilaginosas, lesões de tendões ou para avaliar com precisão a ruptura total dos ligamentos em casos graves, a Ressonância Magnética pode ser indicada.
Tratamento: Do Pronto-Socorro à Reabilitação
O tratamento da entorse de tornozelo no adulto é eminentemente conservador (não cirúrgico) na grande maioria dos casos. A cirurgia é reservada apenas para atletas de altíssima performance com rupturas graves ou casos de instabilidade crônica que não melhoram após meses de reabilitação.
O tratamento divide-se em duas fases fundamentais:
1. Fase Aguda (Primeiros 3 a 5 dias)
O objetivo principal é controlar a inflamação, diminuir o inchaço e aliviar a dor. Para isso, utilizamos o protocolo conhecido na ortopedia como PEACE:
Proteção (Protection): Restringir o movimento do tornozelo nos primeiros dias usando uma tala ou bota imobilizadora para evitar novos traumas.
Elevação (Elevation): Manter a perna elevada sempre que estiver deitado ou sentado, facilitando o escoamento do inchaço.
Evitar anti-inflamatórios em excesso: A fase inicial da inflamação é necessária para a cicatrização do tecido. O uso de analgésicos comuns prescritos pelo médico é o preferido.
Compressão (Compression): Uso de faixas elásticas ou meias compressivas para conter o edema.
Educação (Education): Entender que a recuperação leva tempo e que o repouso relativo é fundamental.
(Nota técnica: A aplicação de gelo local por 15 a 20 minutos, 3 a 4 vezes ao dia, também é uma excelente aliada no controle da dor inicial).
2. Fase de Reabilitação e Fisioterapia (Ponto Chave!)
Aqui está o erro da maioria dos adultos: assim que a dor diminui e o inchaço baixa, as pessoas abandonam o tratamento. A fisioterapia é indispensável para evitar que o tornozelo fique "frouxo".
A reabilitação fisioterapêutica trabalha:
Treino de Propriocepção: A torção danifica os receptores nervosos do ligamento que avisam o cérebro sobre a posição do pé no espaço. Exercícios de equilíbrio (em superfícies instáveis) são essenciais para "reprogramar" esses receptores e evitar novas quedas.
Fortalecimento Muscular: Fortalecer os músculos fibulares (na lateral da perna), que funcionam como os protetores dinâmicos do tornozelo.
Ganho de Amplitude: Recuperar o movimento completo do pé sem dor.
As complicações de uma entorse negligenciada
Tratar uma torção apenas com "repouso e paciência" sem acompanhamento médico pode levar à Instabilidade Crônica do Tornozelo.
Quando os ligamentos cicatrizam de forma "frouxa" ou a propriocepção não é recuperada, o paciente passa a ter torções de repetição — o famoso tornozelo que "falseia" a cada passo num terreno irregular. A longo prazo, esse atrito desordenado pode desgastar a cartiagem e acelerar o surgimento de artrose precoce no tornozelo.




Comentários